O paradigma da saída

Estêvão Raschietti

comidi-iv-congressoA Igreja no Brasil se prepara para realizar o 4º Congresso Missionário Nacional em Recife (PE), de 7 a 10 de setembro, em preparação ao 5º Congresso Missionário Americano (CAM 5) que acontecerá de 11 a 15 de julho de 2018, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O tema do congresso será “A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída”, e o objetivo é “impulsionar as Igrejas no Brasil para um dinamismo de saída e caminhar juntos no testemunho da alegria do Evangelho, da comunhão e do profetismo”. Vamos refletir então: o que significa a palavra “saída” para a Igreja missionária?

Na sua origem, a palavra “missão” significa “envio”, “partir”, “sair”. Todo o “envio” pressupõe um ponto de partida, um ponto de chegada e uma tarefa a ser cumprida. O ponto de partida é o “amor fontal” do Pai, que envia o Filho e o Espírito e que chama a comunidade a participar desse dinamismo saindo ao encontro dos irmãos e irmãs, até os confins do mundo. O ponto de chegada é a alegria da vida plena no Reino de Deus. A tarefa é anunciar a proximidade desse Reino, convidando as pessoas a se tornarem discípulas de Jesus, seguidores do seu Evangelho e anunciadoras do seu Amor.

A Igreja não é feita para ficar apenas em suas instituições, fechada em suas estruturas: ela foi criada para estar em movimento e se lançar ao mundo. Essa é sua natureza: sua razão de ser está em “sair”.

Mas essa sua saída não está somente em um deslocamento aventureiro de “pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos” (EN 19); nem em uma intensa ação de visita a famílias e comunidades pelos cantos mais remotos de nosso Brasil, nem simplesmente trilhar veredas pelos caminhos do mundo pluricultural, encarando os desafios lançados por uma sociedade cada vez mais secularizada.

A saída da qual falamos é uma saída profunda, que toca as dimensões mais íntimas da vida da gente. Não é sair para querer tomar conta da vida dos outros com os nossos projetos e as nossas visões de mundo. Isso não é missão: é dominação. Não é sair para estender nossa influência na sociedade e agregar assim mais adeptos à nossa instituição. Também isso não é missão: é proselitismo. Não é somente sair para querer fazer do mundo uma só família e ser solidários com os mais pobres, e buscar com isso apenas uma realização pessoal. Da mesma forma, isso não é missão: é autocomplacência.

A saída missionária exige, antes de tudo, uma purificação das nossas melhores intenções: “impõe-se uma conversão radical da mentalidade para nos tornarmos missionários”, dizia João Paulo II. Por isso necessitamos de uma ação insistente, paciente e participativa de mudança de mentalidade da qual possam surgir uma nova maneira de pensar, de agir, de acreditar, de caminhar e de sonhar para continuar a semear a esperança do Evangelho no meio de todos os povos.

Essa mudança consiste em passar da visão de missão como “expansão” da Igreja e “implantação” do Reino de Deus no mundo, à missão como “encontro” e “proximidade” com os povos. No lugar de insistir em querer “catequizar”, “redimir” ou “salvar” as pessoas, como se fossem “objetos” ou “alvos” da nossa ação, a missão transforma-se profundamente ao tentar compreender nossos interlocutores simplesmente como “gente”, com toda dignidade, respeito e valor que esse termo exige: Deus já se encontra no meio deles!

Missão, portanto, é ir ao encontro, tornar-se companheiro dos pobres e hóspedes na casa dos outros, fazer acontecer o Reino de Deus no reconhecimento, na escuta e no diálogo.

Desta maneira, “sair” é um processo profundamente pascal, uma “passagem” que nos transforma e nos converte ao longo de um tempo crítico de peregrinação rumo ao mundo do outro. É uma viagem necessariamente para fora e para dentro de nós mesmos. A missão autêntica implica vida, morte e ressurreição da nossa vaidade, nos liberta da tentação da presunção e nos torna ligeiros anunciadores do Evangelho de Jesus.