Depressão e suicídio: males que têm atingido a juventude

Jeferson Carvalho

Psicólogo

Vivemos um tempo de inquietação em nossa sociedade. A família, as instituições de ensino e as igrejas, de uma maneira geral, demonstram sua preocupação com uma determinada onda entre os adolescentes, que dá conta do aumento dos casos de depressão severa e tentativas de suicídio na população adolescente.

Mais notadamente entre os adolescentes houve um crescimento de 10% na taxa de suicídio, o que se configura um motivo de alerta e preocupação. Isto nos traz uma pergunta fundamental: afinal quais as motivações que levam estes adolescentes a comportamentos tão drásticos? Alguns atribuem este fenômeno recente ao “jogo da baleia azul”, que tenta provocar uma espécie de sequestro psíquico entre os adolescentes. Sem minimizar e relativizar, somos tentados a refletir que apenas para a ponta do iceberg.

Reflitamos um pouco sobre a relação entre pais e filhos. Como sabemos, a família é a base de toda a educação, como de resto nela nosso ser gente desabrocha e desenvolve, apreendendo os primeiros valores. Nela desenvolvemos um sentimento de pertença, que é fundamental para a segurança emocional. Esta segurança provém do amor e do afeto proporcionado pelos pais a seus filhos. Vivemos um tempo em que nem sempre estas relações são saudáveis, deste ponto de vista. No contexto atual, nem todas as famílias conseguem dar suporte emocional aos seus filhos.

A estrutura familiar vem mudando e nos deparamos com os mais variados formatos familiares. Temos a família tradicional, as monoparentais, as de segunda união, todas elas tentando realizar a missão da família, que é dar segurança, amor, sentido de pertencimento e possibilidades de futuro. Nem sempre isso é possível. Por outro lado encontramos também nas famílias diversas questões que vão problematizando este desenvolvimento, tais como alcoolismo, violência doméstica, traições conjugais, etc.

As vivências proporcionadas por estes fatos, aliadas à falta de cuidado, afeto e amor, criam um ambiente propício para a insegurança emocional e a ausência de um sentido de pertencimento. Quando sentimos que não pertencemos a nada e a ninguém, estamos vulneráveis.

Podemos observar também que, pelas caraterísticas da vida moderna – excesso de atividades, estudo, trabalho, etc – cada vez menos as pessoas de uma mesma família aprofundam suas relações.

Outro dado relevante é que, segundo o IBGE, das cerca de 61 milhões de mulheres que são mães no Brasil um pouco mais da metade trabalham fora de casa, e 31% destas são responsáveis pelo provento familiar, ou seja, são pai e mãe. São realidades que mudam a forma de relacionamento com os filhos, abrindo espaço para grupos oportunistas e que apresentam risco para a educação e desenvolvimento das crianças e adolescentes.

Sabemos que independente da estrutura familiar, o que dá segurança emocional e sentido de pertencimento as crianças é o Amor, com todas as letras e com toda a energia. O Amor incondicional inocula nos filhos a segurança necessária para uma vida com sentido.

Outro aspecto importante a ser destacado é a depressão, fenômeno que vem se transformando numa verdadeira epidemia. No Brasil ela atinge 6% da população e entre 2005 e 2015 cresceu 18%, um número preocupante.

A pressa imposta por este mundo moderno – falta tempo para tudo, queremos tudo rápido e pra ontem – aumenta vertiginosamente os níveis de ansiedade, que nos últimos dez anos tiveram um crescimento de aproximadamente 15%. Ao mesmo tempo, aumentou o consumo de ansiolíticos.

A depressão cresce entre os adolescentes rapidamente, muito por conta de uma ausência de sentido, de projeto de vida e de um olhar altruísta sobre si mesmo. Adolescer não é uma tarefa das mais fáceis, é adentrar num novo mundo, adquirir um novo corpo, outra psique, abandonar o “ser” criança para o “ser” adolescente, que é um ensaio para a vida autônoma, adulta. É tempo de elaborar vários lutos, pois tudo muda com muita rapidez, é preciso esperar o tempo do desenvolvimento.

Neste momento pode se instalar uma ausência de sentido, se questiona tudo, nada serve, tudo parece ultrapassado, às vezes para este ser humano o passado já não serve. Há muita insegurança com o que reserva o futuro. Quando não há sentido de pertencimento, há espaço para se instalar uma autoestima rebaixada, e o próximo passo é o estado depressivo. Este é o momento do resgate deste ser humano, este é o momento de seus pais estarem atentos e  verificarem as mudanças de comportamento e de humor.

Nestes tempos de muitas relações virtuais, que proporcionam uma proximidade enganosa entre as pessoas, quando e como os adolescentes vão se sentir amados? Pelo número de curtidas em suas postagens nas diversas redes sociais. É neste ambiente também que relações se estabelecem ou desaparecem, pois basta uma curtida para apoiar alguém ou deletá-la, se me faz algo que me contraria.

Estamos muito distantes das pessoas humano, dos sentimentos que nos fazem “suportar” o outro. Há pouca suportabilidade para a frustração, pouca paciência, pouca espera. Mas a vida não é construída de clic em clic, ela existe na realidade palpável do cotidiano. A autonomia, tão desejada com o nome de liberdade, é tarefa árdua, que requer uma construção continua no a dia a dia, que inclui renúncias, requer uma olhar altruísta e compassivo sobre si mesmo, no sentido de também se amar, como nos propõe Jesus Cristo quando diz “amar ao próximo como a si mesmo”. Isto não significa amar-se egoisticamente, nem de uma forma individualista, mas amar-se aceitando o que somos, com dons, potencialidades, virtudes e limitações e, sobretudo, esperar o tempo de desenvolvimento destes dons. Olhar compassivo sobre si mesmo significa olhar com cuidado e compaixão, permitindo que os valores que emanam do coração façam a vida desabrochar em si com sentido.

As perguntas “quem sou eu?”, “o que posso ser?”, “o que fazer para realizar meus sonhos?”, “o que quero para o meu futuro?”, “como posso me preparar para o meu projeto de vida?”, “que papel tenho na sociedade?”, “Serei aceito como sou?” permeiam o imaginário e a existência de jovens adolescentes que vivem a utopia de mudar o mundo, ser autônomo, mudar as regras e criar suas próprias regras.

Esta dinâmica favorece a formação de grupos afins. A procura de pares faz parte do processo de afirmação pessoal e o desejo de ser aceito no grupo a que quer pertencer. Desenvolve também o adolescente o Mito do Herói, o pensamento heroico, no qual o sentido de ser indestrutível toma conta do seu ser. Adora correr riscos, deixar rolar a adrenalina, acha que consigo nunca acontecerá nada. Todos estes elementos fazem parte do processo de formação de identidade.

A família, em que pesem as dificuldades dos tempos modernos, não pode se alienar de sua função de educadora e formadora de seres humanos, deve mais do que nunca fortalecer os vínculos e as relações compassivas e amorosas entre si. Participar da vida dos pais, os pais participarem da vida dos filhos, terem atividades em comum. Filhos amados e cuidados possuem mais ferramentas para fazer melhores escolhas.

Nossas escolas também possuem um papel bastante importante na formação de nossos jovens adolescentes, cuidando do desenvolvimento cognitivo, da capacitação profissional, mas também apresentando valores que permitam ao jovem adolescente a construção de seu projeto de vida. Cabe à escola fazer uma escuta cuidadosa dos anseios e sonhos destes adolescentes, para oferecer atividades que contemplem estas expectativas. Dar apoio e acompanhamento nestas escolhas, oferecendo suporte material e acompanhamento pedagógico. Proporcionar discussões que contemplem a construção de uma ética cidadã, com vistas à construção de um mundo mais justo e humano.

A Igreja também tem um papel estruturante na construção da personalidade do adolescente. Cabe a ela, com suas catequeses, movimentos, grupos de jovens, etc, introduzir a criança, o adolescente e o jovem no mundo da espiritualidade. Falamos de uma espiritualidade que tenha apelos aos adolescentes, de práticas que tenham uma linguagem que se aproxime da comunicação juvenil, alegre, inquieta, acolhedora e inclusiva, que contemple as mais diversas tribos, sejam os skatistas, surfistas, roqueiros, etc. Sabemos que, estatisticamente, apenas em torno 15% dos católicos cristãos frequentam as igrejas, participando das missas. O Papa Francisco no pede uma igreja em saída, e se uma igreja com rosto jovem se apresenta a estas tribos, propagando a utopia do Evangelho, certamente propostas empáticas que contenham acolhimento, compaixão, dinamismo, compassividade, amorosidade penetrarão no coração jovem, ardente de sonhos, de utopias, de propostas transformadoras, de crença num mundo melhor e mais justo.

Como vivemos numa sociedade que engloba todas estas estruturas, precisamos pensar sistematicamente, e agir de uma forma que as famílias influenciem as igrejas, que por sua vez influenciem as escolas, que por sua vez influenciem nas famílias, todas interagindo e influenciando umas às outras.

Não há mensagem mais arrebatadora e transformadora do que aquela que foi propagada pelo jovem nazareno, Jesus Cristo. Quem verdadeiramente bebe desta água e come deste pão encontra a vida, e vida em abundância. É desta vida que necessita a Família, a Escola e a Igreja. A vivência destes valores se constitui numa vacina poderosa que pode imunizar nossos jovens adolescentes dos perigos das drogas, dos vícios, da depressão, das automutilações, das tentativas de suicídio. É nosso papel, enquanto sociedade que se faz Igreja, atuar na prevenção, construindo um ambiente sadio que proporcione a vida em verdade aos nossos jovens adolescentes. Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.