Dom Amilton: A Eucaristia no dia a dia do cristão

 

Dom Amilton Manoel da Silva, CP

Em alguns dias, celebraremos a solenidade de Corpus Christi. Em várias partes do mundo e, particularmente no Brasil, o povo irá manifestar sua devoção e amor à Eucaristia, enfeitando ruas e o interior das Igrejas para o Santíssimo Sacramento passar. Na nossa Arquidiocese não será diferente: milhares de pessoas irão participar das Missas e sair às ruas, numa demonstração massiva e efetiva de fé. O ponto alto será a Missa na Catedral Metropolitana, a procissão até a praça Nossa Senhora de Salete e a bênção com Jesus Sacramentado.

“Levar Jesus no ostensório, pelas ruas, também é uma clara demonstração de que Deus caminha com o seu povo e fortalece os seus passos a todo instante”

A instituição da solenidade de Corpus Christi foi impulsionada pelas grandes controvérsias que surgiram entre os séculos IX e XIII sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, como também pela influência de Santa Juliana de Mont Cornillon, cujas visões solicitavam uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento. O Papa Urbano IV, em 1264, com a bula Transiturus de hoc mundo, estabeleceu a solenidade de Corpus Christi para toda a Igreja, na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Na bula, o Papa associa Corpus Christi à Quinta-feira Santa, como sendo uma “extensão” da mesma, mas de forma jubilosa, com o louvor que a Eucaristia merece receber e que não é possível na Semana Santa.

A partir de então, cresceram as adorações e vigílias eucarísticas que, ainda hoje, atraem multidões de fiéis, o que mostra gratidão e adesão à presença real e sacramental de Deus em nosso meio. São Paulo da Cruz e Santo Afonso de Ligório, que viveram no séc. XVIII, motivaram as adorações eucarísticas como preparação para as Missas, uma forma de alimentar o desejo de comungar Cristo. Levar Jesus no ostensório, pelas ruas, também é uma clara demonstração de que Deus caminha com o seu povo e fortalece os seus passos a todo instante. No entanto, esses momentos jamais poderão substituir o “tomai e comei”, o “tomai e bebei” e o “fazei isto em memória de mim”.

“Quem participa da mesa da comunhão torna-se um com Jesus e colaborador no projeto de Deus, o que significa que a Eucaristia traz consequências para quem a recebe, traz desdobramentos no dia a dia do cristão”

A palavra Eucaristia é de origem grega: εὐχαριστία, que significa “ação de graças”. Mas também é “gratuidade”, no latim, “gratia”. Quem participa da mesa da comunhão torna-se um com Jesus e colaborador no projeto de Deus, o que significa que a Eucaristia traz consequências para quem a recebe, traz desdobramentos no dia a dia do cristão. Isto se chama “viver eucaristicamente”, em gratitude, onde não há espaço para o individualismo, para o comodismo e o desamor.

O que Jesus nos propôs quando instituiu este Sacramento? No dia dos ázimos, o Mestre pediu que alguns dos discípulos preparassem tudo para comerem a Páscoa (cf. Mt, 26, 18-19; Mc 14, 12-16; Lc 22, 7-13). A primeira implicação para o cristão é preparar o lugar para a ceia. Acordar cada manhã e perguntar ao Senhor: “Onde queres que preparemos a Páscoa?” (cf. Mt 26,17; Mc 14,12). Onde a dor, a tristeza e a ausência de vida clamam por ressurreição, é aí que o Senhor desejará celebrar a Sua Páscoa. Preparai!

Ao se colocar à mesa com os discípulos, Jesus manifestou: “Desejei ardentemente comer com vocês esta ceia pascal” (Lc 22, 15). Antes de buscar Cristo, é Ele que nos busca; antes que o desejemos para saciar as nossas fomes, é Ele que deseja “nos comungar”. Afinal, Ele nos elegeu por primeiro (Jo 15,16) e essa escolha não foi por acaso: envolve compromisso mútuo e corresponsabilidade; é comensalidade, é encontro íntimo do Esposo com Sua Igreja, que Ele alimenta, fortalece e envia.

“Antes de buscar Cristo, é Ele que nos busca; antes que o desejemos para saciar as nossas fomes, é Ele que deseja ‘nos comungar'”

Jesus tomou o pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles… Tomou o cálice com vinho, agradeceu a Deus e repartiu com eles… (cf. Mt 26, 26-27; Mc 14, 22-24; Lc 22, 17-19; 1Cor 11, 23-25).  Nas mãos de Jesus, pão e vinho são consagrados; nas mãos do sacerdote que celebra in Persona Christi, acontece o mesmo, e é dessa forma que devemos comê-Lo e bebê-Lo, para vivermos Nele, por Ele e com Ele. O que foi consagrado não pertence a si mesmo, mas a Deus, que parte, distribui, partilha… O que Ele Se faz, faz conosco, pois consagrados ao Senhor, pelo Batismo, é preciso que o cristão seja para o mundo pão partilhado e vinho derramado (cf. Mt 26, 26.28; Mc 14, 22-24; Lc 22, 19-20), ou seja, doação plena para que todos tenham vida (cf. Lc 10,10).

Ao final da Ceia, Jesus ordenou: “Fazei isto em minha Memória” (Lc 22,19; 1Cor 11, 24-25). A Memória vai além da recordação, ela atualiza a presença do Senhor em nós e entre nós. Fazer Memória é comungar Cristo por inteiro, humano e divino, o que nos cumula dos seus sentimentos (cf. Fl 2,5) e nos faz abraçar as suas opções e a sua causa; por isso, é perigosa, pois poderá nos levar ao mesmo destino do Mestre: à incompreensão e à morte.

Eucaristia, como Ceia (Lc 22,15), como Alimento e Bebida (Mt 26,26-27), como Sacramento Escatológico (1Cor 11,26), como Sacrifício (Lc 22,19-20), como Remissão dos pecados (Mt 26,28) e como Memorial (Lc 22,19). Tudo isso implica muito mais que devoção eucarística, deve levar o cristão a uma abertura responsável para com os outros, “especialmente com aos pobres, educando-nos a passar da Carne de Cristo à carne dos irmãos, nos quais Ele espera para ser reconhecido, servido, honrado e amado” (Papa Francisco).

Cresçamos na consciência de que a Eucaristia se expande além dela mesma, ela adentra o nosso cotidiano, onde fé e vida se unem mutuamente. Sejamos homens e mulheres eucarísticos.