O Menino Jesus e o Papai Noel, quem traz a novidade?

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Por: DOM AMILTON MANOEL DA SILVA, CP
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Curitiba

Estamos no mês de dezembro, um dos meses mais esperados do ano, seja pelas festas que se aproximam ou pelas férias escolares e trabalhistas. Este mês parece conjugar o “gosto” do fim e a expectativa do novo, onde a nostalgia vai do passado ao futuro, lançando no presente as marcas do que se foi e os sonhos que vão chegar…

Para os cristãos tudo isso tem sentido à luz do Santo Natal, “porque nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado e sobre o seu ombro está o manto real, e ele se chama ‘Conselheiro admirável’, ‘Deus forte’, ‘Pai para sempre’, ‘Príncipe da paz’” (Is 9,5). De outra forma não justificaria tamanha espera pela novidade que “pode” vir.

O que garante o novo, para os cristãos, não são os dias já marcados na folhinha de parede, na agenda ou no calendário do celular, mas Aquele que é o Senhor da vida, cuja história está em suas mãos: Jesus Cristo. Deus se fez carne e entre nós veio morar; desde então, sua presença amorosa garantiu para sempre a eterna novidade no Cronos, porque seu tempo é um momento de eternidade no caminho percorrido (2 Pd 3,8) e seus dias um horizonte aberto nas barreiras que forjamos.

A noite feliz deixa então de ser um hino, um momento, um fato na história e passa a ser as horas, os dias e a soma de uma vivência intensificada na graça e na fidelidade do seguimento do mestre. Mas, infelizmente nem todos aderem a essa novidade… Fico a pensar nos opostos: nossas Igrejas x nossas vitrines; no mercado natalino, que vai das bancas expostas nas avenidas aos Shoppings Centers e da mensagem cristã que os cristãos teimam em apresentar à humanidade esperando um maior compromisso com Deus e com o próximo. Nesta luta desigual, infelizmente não podemos repetir como o profeta Jeremias: “Venceste Senhor!” (Jr 20, 7).

Há muito tempo que o Papai Noel, símbolo do poder econômico e do consumismo desenfreado, roubou o lugar do Menino Deus. Embora associem o velhinho bom e simpático com o grande São Nicolau, arcebispo de Mira na Turquia, do século IV. Ele tirou o lugar do Menino Jesus no Natal, nos corações, e semeia confusão entre os cristãos. Em muitos lares não há presépios, mas lá está ele, se destacando entre os enfeites natalinos, passeando de trenó com suas renas, tocando guitarra, ofegante com o grande saco de presentes nas costas… Ele distrai, alegra, mas não aponta a realidade verdadeira do Natal.

Chego à conclusão de que o Papai Noel faz discriminação social. Prefere crianças ricas que têm lareiras em suas casas e boas meias para esperá-lo, enquanto crianças pobres, que moram em barracos, sem lareira ou chaminés, que caminham descalças pelo duro chão da fome, da miséria e da violência, não têm vez! Nunca ouvi dizer que Papai Noel caminhasse entre os pobres, distribuindo seus presentes… Vejo, sim, homens e mulheres de boa vontade, que em todas as épocas do ano conseguem aliviar um pouco o sofrimento da criança pobre, na pastoral da criança, no voluntariado das comunidades cristãs, etc… Isso não é fantasia, é realidade, é coração que sai de si para incluir o outro.

Dom Hélder Câmara dizia que são bem-aventurados os que sonham, porque os sonhos não lhes serão roubados, mas o Papai Noel tem a capacidade de frustar e roubar sonhos. Quantas crianças têm seus sonhos realizados pelo velhinho bondoso? Quantas já escreveram cartas a ele e tiveram respostas? Roubar os sonhos de uma criança é roubar suas esperanças, suas utopias e seu horizonte…

O Papai Noel aparece apenas numa época do ano, enquanto as necessidades dos pobres são diárias e os presentes mais desejados como trabalho, moradia, compaixão, solidariedade, respeito e dignidade não existem no seu saco. Embora um ou outro receba, do velho bondoso, um presente de Natal, o encanto é passageiro e a alegria não consegue manter acesa a chama da perseverança na dureza da vida.

A grande e única novidade do Natal é o Menino Jesus, que não discrimina, não rouba sonhos e dá mais do que pedimos… Ele não conheceu o Papai Noel e nunca ganhou dele um presente, mas se deu como presente no seu nascimento. Viveu entre os pequenos da terra, incluiu-os no seu projeto de vida e, ao morrer entre os últimos, colocou os pecadores entre os primeiros no Reino do Céu. Ele se fez o maior presente para todos porque se fez SALVAÇÃO.

Neste Natal não deixemos que o Papai Noel ilusório apague a luz verdadeira que o Menino Deus veio trazer a terra e aos corações humanos.

Feliz e santo Natal!