“Em tempos de Sínodo e de Missão”: reflexão de Dom Peruzzo sobre este Mês Missionário

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É já tradição da Igreja no Brasil dedicar o mês de outubro à temática missionária. Assemelha-se ao “dia dos pais”, “dia das mães”, “dia da pátria”… Um dia especial para celebrar uma realidade que nos interpela todos os dias. O mês missionário é um tempo para que voltemos nossas atenções e afeições a uma verdade já ínsita à natureza de quem é discípulo. Quando o Papa Francisco anunciou este “Mês Missionário Extraordinário” o objetivo era despertar, na Igreja, a urgente sensibilidade para a causa missionária. Isso para reavivar a consciência batismal do Povo de Deus.

Missão não é algo como propagandear uma pessoa, ou ideia, ou instituição, ou grupo institucionalizado. É promover o encontro pessoal com Jesus Cristo ao modo que suscite sentido de esperança e plenitude para a vida de quem com Ele se encontra. Não está no centro propor uma filosofia de vida ou um sistema de pensamento. É relação viva com o Filho de Deus Salvador. Em tempos de tanto vazio de sentido, muito embora nunca tenha sido disponibilizada tanta ciência, eis que muitos homens e mulheres estão à procura de si e de sentido para sua existência. Eis a missão, em muitas linguagens, para quem aceita a identidade de discípulo de Jesus.

Ademais, há ainda um grande tema que está a suscitar muitas inquietações, mas também esperanças. Quantas notícias agitadas, muitas delas eivadas de uma “religiosa má fé”, em torno do que já houve muitas vezes na história da Igreja. Já se disse, até com grosseria intelectual, que há inspirações políticas a jogar questionamentos até sobre a soberania nacional naquele território. Há os que vislumbram ameaças ao desenvolvimento. Outros tentam identificar nódoas esquerdistas ou disfarces comunistas… Quantas reações assinaladas por ruidosa desinformação! E quantas inacreditáveis desinteligências.

Até mesmo dentro da Igreja há grupos que se põem a vociferar como se a fé se restringisse a eventos de templo e de sacristia. Não é a primeira vez que isso se verifica. Basta que a reflexão da Igreja, e especialmente do Evangelho, não “abençoe” certos projetos de poder político e/ou econômico e tudo já se perfila em “viés ideológico”. Isso não é de hoje. Já no tempo de Jesus, nos seus caminhos e ministério pela Galileia, os adversários o projetaram em linha de perigosa oposição ao imperador César Augusto, o grande senhor do mundo de então.

Eu gostaria de deixar claro aos católicos, muitos deles foram arrastados a dúvidas, que da parte da Igreja, e do Papa Francisco, não há outras motivações que não sejam as de Evangelizar. Este verbo nunca teve um sentido de mera “religiosidade numinosa”. Pela natureza mesma do Evangelho, seria falsa qualquer fé que ignorasse verdades como fraternidade, direitos do mais fracos, o bem comum, o respeito às culturas, a justiça… Estes valores encontram retratos vivos nos comportamentos e palavras de Jesus.

Nos últimos meses afloraram reportagens, comentários, análises, fraseologias de muitas colorações, orientadas a fustigar os sentimentos da nossa gente. Até as avaliações cientificamente abalizadas foram “corrigidas” por muitos que se arvoraram a “concessionários da verdade”. Da parte da Igreja, a grande motivação radica-se na consciência de que sua missão é aproximar Jesus, aquele apresentado pelos evangelistas, a todos os que têm em grande apreço o amor a Deus e aos irmãos. Ao final do Sínodo todos poderão ver que a grande causa foi mesmo o Evangelho. E perceberão todos que a Igreja permanece fiel à sua missão. Para tristeza de alguns, todos poderão reconhecer que o “Papa não é comunista”.

* por Dom José Antonio Peruzzo, Arcebispo de Curitiba, especial para a Revista Voz da Igreja- out/2019

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