Artigo – População em vulnerabilidade social e rua (Por Márcia Nunes de Jesus)

 

Você já pensou, já se perguntou o quanto só aumenta o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social e rua em Curitiba?

Se você ainda não tinha parado para pensar sobre esse assunto, em como essa população torna-se visível para nós enquanto cidadãos de direitos e deveres, convido a uma reflexão. Imagine, por exemplo, como esta população enfrenta o desafio da pandemia de Covid-19…

As pessoas – nós, cidadãos – estão cada vez mais fartas de ouvir falar de burocracia, intervenção estatal na economia das grandes organizações hierárquicas. O tema passa a ser visualizado como de globalização e flexibilidade, das perspectivas criadas por comportamentos francamente utilitaristas em contextos mais excludentes. Pode-se dizer que é o ápice da produção automatizada.

Existe uma corrente, que é defendida por alguns pensadores, que afirma que, no momento atual, estamos vivenciando a quarta revolução industrial, que cada vez mais induz e propõe uma visão de flexibilidade, das perspectivas criadas por comportamentos francamente utilitaristas em contextos nos quais se diz que a regularização, liberada do peso do Welfare State, produz eficiência e inovação.

É preciso voltar a examinar os fatores sociais que vão além do paradigma do mercado. E, seguindo uma via iniciada em grandes linhas, desenvolvida, por Granovetter (1985), retomar a elaboração de uma teoria da incorporação social [social embeddedment] dos comportamentos econômicos.  Neste momento crítico em que a sociedade está inserida, a atual conjuntura econômica favorece a marginalização e a exclusão social, pois grande parte da população produtiva não possui formação técnica adequada. Consequentemente, torna-se uma legião abundante de mão de obra barata, que, recebendo baixos salários, retorna à sociedade sem conseguir suprir suas necessidades.

Neste mundo perverso, são vários os motivos que levam uma pessoa a ficar em situação de vulnerabilidade social e “residir na rua” – o termo correto é “estar na rua”! Alguns dos motivos que tenho ouvido dentre os mais citados por eles em conversas que acolho como profissional de serviço social, com escuta qualificada, são: desemprego, desestruturação e desmontes das políticas públicas socioassistenciais.

A marginalização e a invisibilidade dessas pessoas por parte da sociedade é tanta que sua situação de sobrevivência destoa do contexto social. Exige-se, no momento atual, que não só o poder do estado, mas também a sociedade civil, ajam de maneira efetiva ao se deparar com essas mazelas sociais, em vez de marginalizar e excluir esses seres humanos. Torna-se imperativa uma atuação mais eficaz e eficiente, tanto pelo estado quanto pelos cidadãos comuns. Não basta simplesmente olhar e ver este ser humano, pobre, mendigo, pessoa carente – ele precisa ser reconhecido com indivíduo em um contexto ímpar. É uma imagem “inconveniente”. Quanto, na verdade, este ser humano, necessita ser compreendido no seu todo! A problemática, as nuances do universo onde estão inseridos sujeitos que habitam as ruas e que são marginalizados pela sociedade, além da discriminação e violência a que estão expostos, fazendo com que se sintam obrigados a esmolar para sobreviver. A pessoa nessa situação de exclusão possui um mundo social, constituído de uma cultura própria.

Quando pensamos em população em vulnerabilidade social e rua que apresentam vínculos familiares fragilizados ou rompidos, precisamos compreender quem são essas pessoas. É preciso ter ciência que esta população é heterogênea, em 90% constituída por homens e 10% por mulheres. É necessário respeitar os costumes, as tradições e a diversidade de ciclos de vida, arranjos familiares, raça/etnia, religião, gênero e orientação sexual. Esta população encontra-se distribuída no espaço urbano de forma democrática, respeitando o direito de permanência e usufruto da cidade com segurança, igualdade de condições e acesso aos serviços públicos.

Pensando nessa questão, em março de 2020, devido a pandemia de Covid-19, e por uma solicitação ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social e rua, a Arquidiocese de Curitiba, por iniciativa de Dom Francisco Cota, Bispo auxiliar, convidou a Igreja Bom Jesus dos Perdões e a Pastoral do Povo da Rua, a unir-se para criar o projeto Chá-Fraterno, uma ação solidária e voluntária, em que católicos distribuíam 200 lanches diários, nas dependências da Igreja Bom Jesus dos Perdões.

A ação tomou grandes proporções e foi rebatizada de Projeto Mesa Fraterna. O trabalho nasceu com um grupo de 10 voluntários, que distribuíam 246 lanches por dia para homens, mulheres, crianças. Aliás, os a animais também não foram esquecidos: também foram arrecadados muitos pacotes de ração que foram distribuídos para os animais tutelados pelas mesmas pessoas ajudadas pelo projeto.

Na medida em que a ação crescia, também foi aumentando o número de voluntários para atuar no Projeto. As doações também foram tomando proporções maiores, abrangendo, além dos alimentos, também os Kits de higiene (escova de dente, pasta de dente, barbeador descartável, sabonete, absorventes), e ainda roupas, calçados, cobertas e muito mais.

Com o passar do tempo e ampliação do atendimento da população em situação de vulnerabilidade social e rua, aumenta-se a equipe que atua no projeto, ressaltando, porém, que as equipes formadas trabalhavam em setores diferentes, uma separada da outra, conforme protocolo Covid. A equipe da cozinha preparava os lanches na cozinha da Igreja Bom Jesus dos Perdões, enquanto as pessoas responsáveis pela separação e entrega das roupas ficava em outras da Igreja.

Mesmo com todos os cuidados sendo tomados desde o início, chegou um momento em que tornou-se necessário buscar um local mais apropriado, onde as pessoas pudessem ter mais conforto, sentar para comer o lanche, usar o banheiro (o que era uma queixa antiga da população assistida) – oferecer maior dignidade, enfim. Assim, o grupo conseguiu firmar parceria com a Fundação de Ação Social de Curitiba e a Secretaria Municipal de Abastecimento. As refeições passaram a ser entregues no restaurante popular Matriz em Curitiba, onde os assistidos podiam permanecer por uma hora.

Conforme orientação do próprio Papa Francisco, o grupo realizou uma missa para os voluntários do projeto e a comunidade em geral, celebrando o Dia Mundial do Pobre, comemorado no dia 15 de novembro de 2020. A proposta foi refletir sobre a situação das pessoas em situação de vulnerabilidade social e rua, incentivando o movimento da Igreja para ser a “Igreja em saída”, como tanto afirma Papa Francisco.

 

Veja a seguir um resumo das ações do Projeto Mesa Fraterna, que começou os trabalhos em março de 2020 e teve sua conclusão no dia 11/12/2020. Nesse período foram desenvolvidas as seguintes ações:

 

  • Distribuição de 52.151, lanches;
  • Realização de 2.147 atendimentos socioassistenciais, com entrega de roupas, cestas básicas e produtos de higiene;
  • Coordenação de 2.323 Voluntários que participaram da Projeto Mesa Fraterna, com ações de sensibilização para atuar na ação como voluntária, escalas de trabalho, formulários de adesão, contatos telefônicos e outros trabalhos;
  • Distribuição de 1.324 Kits de higiene. Cada Kit era composto de pasta de dente, escova de dente, gilete de barbear, sabonete e absorvente feminino, contabilizando 6.620 itens;
  • Distribuição de 194 vacinas para a população em situação de vulnerabilidade social e rua, além de 12 pessoas voluntários, na campanha de vacinação H1N1.

 

Nossa pretensão quanto ao papel da sociedade católica da cidade de Curitiba, a respeito dessa situação de mazela e exclusão social da população em situação de vulnerabilidade social e rua, é a de evidenciar o quanto nossa cidade é carente em ofertar políticas socioassistenciais que sejam eficientes e eficazes, que oportunizem dar voz e visibilidade para estas pessoas, que sejam reconhecidas como cidadãos, que tenham seus direitos e deveres reconhecidos e assegurados.

Se continuarmos apenas na perspectiva de atendimento caridoso, fica quase impossível oportunizar para esses seres humanos a construção de novos projetos de vida. Devemos incentivá-los a tornarem-se autores e protagonistas de suas novas histórias de vida. A exclusão social, a marginalização e a exploração da população pobre designam um processo de afastamento, privação e violação de direitos, de tal forma que determinados indivíduos, ou grupo de pessoas que se-encontram situação de vulnerabilidade social e rua, não são considerados cidadãos.

É evidente que, neste novo cenário, devemos oferecer a escuta qualificada e personalizada, o acolhimento, a motivação e a orientação social que estimulem o engajamento dessas pessoas, de forma que se proporcione o fortalecimento de vínculos fragilizados, o acesso às políticas socioassistenciais, a inserção no mercado de trabalho e a cultura. Essas ações, de forma singular, oportunizarão e incentivarão a sua reinserção nesse novo projeto de vida, para sua nova história de vida. Assim, ele será autor e protagonista de sua história.

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Autora: Marcia Nunes de Jesus – CRESS 4118/PR.

 

 

 

 

REFERENCIAS:

 

  1. Granovetter, Mark. 1985. “Economic Action and Social Structure: The Problem of Embeddedness”. American Journal of Sociology 91 (November): 481-510.
  2. Jesus Marcia Nunes de: Gestão e Implementação do Projeto de Acolhimento institucional – Resolução /2009 CNAS. Conclusão em 2017-2018.

 

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