Artigo: Páscoa em tempos de pandemia: ‘uma conversão à família’

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Não é a primeira vez que uma pandemia se lança sobre a humanidade. Incertezas se multiplicam, temores se difundem, pânicos se disseminam, culpabilizações se alastram… Enumeram-se quase ao infinito as opiniões de toda ordem… Até os que desconhecem se põem a analisar e a difundir comentários, sempre confundindo mais. Por outro lado, não é a primeira vez que a humanidade é torpedeada por alguma pestilência. A “peste negra” varreu um bom percentual da humanidade lá por meados do século XIV. A chamada “gripe espanhola”, logo após a primeira guerra mundial, levou à morte várias dezenas de milhões…

Hoje é o tal do COVID-19 que está a pôr a humanidade de joelhos. Ele chega aos pobres e aos nobres. Discreto, silencioso, às vezes até sem sintomas, eis que até os mais fortes começam a temer sua proximidade. As respostas preventivas soam e ressoam. Claro, a responsabilidade é de todos. Face à problemática da dengue não se pode falar muito da colaboração da nossa gente. Faltou em corresponsabilidade. No caso do COVID-19 a velocidade da propagação suscita comportamentos mais prudentes. Tudo pela via do temor.

Mas agora, após várias semanas sob a ameaçadora companhia do novo vírus, já com os primeiros sepultamentos por causa dele, a todos, mas especialmente os cristãos, impõe-se uma séria reflexão. Afinal, o tempo que temos de quaresma e de Páscoa provavelmente passaremos em casa, fechados, obrigados a rever nossas relações com o tempo e principalmente com os nossos familiares. O motivo imediato é a prevenção, mas nisso há ensejos ao encontro paciente e reflexivo.

Permanecer juntos por mais tempo, sem oportunidades para saídas, passeios, eventos festivos por grupos de afinidades, exige as melhores disposições à paciência e à tolerância face às fragilidades daqueles que amamos. Será preciso ouvir como não tínhamos ainda feito. Dores e amores dos filhos podem ser melhor dialogados com os pais. O casal poderá conversar sem a pressa ou a ansiedade trazida do trabalho. Novos propósitos para a vida familiar podem aflorar. Talvez se pudesse falar de conversão à família. Até a oração em família, esquecida em muitos ambientes, pode encontrar novas contextos favoráveis.

Mas para tudo isso é necessário determinação. Não é uma realidade espontânea e conatural. Simplesmente aguardar que os dias tempestuosos da pandemia passem, e tudo volte à antiga agitação, torna-se até uma ameaça às relações interpessoais na casa. Não se deve esquecer que o convívio requer a capacidade de conviver com os defeitos dos outros. No casamento um casou até com os defeitos do outro. Os pais são chamados à paternidade de filhos com insuficiências subjetivas. Os filhos são filhos cujos pais portam pobrezas pessoais. Tudo isso aparecerá com grande evidência nos dias de “quarentena”. Afinal tudo aponta para a presença do vírus em muitos ambientes.

Para onde aponta a Páscoa cristã em tais circunstâncias? Para o vírus é preciso confiar que a ciência e os cientistas façam a sua parte. Mas até com eles é preciso tempo e paciência. Mas lá em casa, com os nossos, a quem dizemos que amamos, de onde virão as forças para compreender, para perdoar, para pedir perdão? Não raro acontece de pronunciarmos as nossas frases mais agressivas justamente a quem dizemos mais amar. Dizendo de outro modo, os nossos limites e fraquezas aparecem mais justamente lá onde a gratuidade é mais urgente. Eis aí o lugar da espiritualidade orante. A conversão à família é a grande linguagem da conversão solicitada pela fé no Cristo ressuscitado.

Quem ora interpreta pessoas e situações a partir de Deus. Quem não ora interpreta pessoas e situações a partir dos próprios critérios. Seriam apenas critérios humanos. Nobres, mas trôpegos. Nestes dias pascais, orar em casa, em família, em tempos de fragilidades vindas de dentro e de fora de nós, mas deixando-nos inspirar pelos discernimentos da fé – quem sabe!? – seja-nos possível purificar aqueles motivos que fizeram-nos pertencer um ao outro e à comunidade da família de Deus.

Dom José Antonio Peruzzo
*Escrito em 20 de março para a Revista Voz da Igreja – Abril/2022

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