CEBs nas Cidades

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Está em andamento em Londrina, de 23 a 27 de janeiro de 2018, o 14º Intereclesial das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que reúne cerca de 3.300 participantes de todo o Brasil, representantes das CEBs dos países do Conesul e parceiros das Igrejas da Europa.A Arquidiocese de Curitiba está presente com a participação de 50 delegados(as), contando com a presença também de padres da arquidiocese e do bispo auxiliar Dom Francisco Cota, referencial para a Dimensão Social.

O encontro aponta para a importância histórica das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). ‘De certo modo as CEBs foram ajudando a constituir nas cidades a busca de espaços de democracia, convivência fraterna, direitos, justiça social e harmonia cultural e religiosa. A comunidade de fé se fez comunidade de obras, de acordo as necessidades do seu povo’. Acompanhe a seguir a reflexão de integrantes da CEBs de Curitiba sobre as CEBs nas cidades e os desafios atuais de “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” [EG 20].

CEBs nas cidades

por Jardel & Mara – CEBs Curitiba

A religião em si, sobretudo o cristianismo, tem uma origem com cidades pequenas, cujos costumes tem raízes nas comunidades de realidade rural. O Brasil até meio século atrás era um país rural. Mesmo as cidades menores tinham princípios e costumes do campo. Curiosamente as CEBs nascem nesse contexto de transição do rural para o urbano. Por um lado haviam muitas comunidades na zona rural, e por outro comunidades surgiram nas periferias, bairros sem urbanização [água, luz, esgoto, escola, etc]. Esses eram os espaços e essas necessidades tornaram a agenda das CEBs nas cidades.

De certo modo as CEBs foram ajudando a constituir nas cidades a busca de espaços de democracia, convivência fraterna, direitos, justiça social e harmonia cultural e religiosa. A comunidade de fé se fez comunidade de obras, de acordo as necessidades do seu povo.

A Conferência da America Latina reunida em Aparecida [CELAM 2005] destaca a que “a cultura suburbana é fruto de grandes migrações de população, em sua maioria pobre, que se estabeleceu ao redor das cidades nos cinturões de miséria. (DA 58). As CEBs nas cidades se estabeleceram ai nesses “cinturões de miséria”, como destaca Aparecida. E tornaram espaços de celebração da fé e vivências/comunhão de práticas libertadoras. Assumiu a agenda dos empobrecidos.

Na medida em que a igreja as CEBs passaram por um processo de paroquialização [assumiu uma agenda de paróquia, mesmo sendo comunidade], em grande medida as comunidades tornaram igrejas espaços apenas da celebração e palavra, abolindo assim práticas libertadoras [formação, participação política, participação da agenda social do território, defesa dos pobres, etc].

Apesar do esfriamento evangélico que sofreram as CEBs, em detrimento do conservadorismo anti-vaticano II, as CEBs continuam sendo “um jeito de ser igreja” que muito pode ajudar a dinamizar a igreja na cidade. Destaca o documento de Aparecida: “atuando, dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias fazendo das mesmas uma comunidade de comunidades”, (DA 179). Sim, pode, mas, não basta ser “comunidade de comunidades” com uma agenda de paróquia. É preciso ser comunidade com a agenda da comunidade [autonomia dos leigos, práticas libertadoras a partir das necessidades da comunidade territorial, agenda política e social, decisões participativas; contrariamente às normas canônicas que centraliza na pessoa do padre (clero) a autonomia paroquial].

As CEBs nas cidades hoje encontram eco nas palavras proféticas do Papa Francisco, na Carta Encíclica Evangelli Gaudium: o imperativo “igreja em saída” significa “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” [EG 20]. Isso é muito mais do que “dar uma volta na quadra da igreja”, mas adentrar a vida do povo, os problemas da comunidade, do território, mas, sobretudo sair das amarras [inclusive canônicas e clericais] que nos impede de avançar na perspectiva do Evangelho, jogar a rede para o outro lado. [Lc 5, 1-11].

A profecia de uma “igreja em saída” pode ser [se assim assumirmos] o impulso novo das CEBs nas Cidades, como “um novo jeito de ser igreja de novo”. A partir de uma metodologia participativa, inclusiva, circular, que olhe para as necessidades pastorais do território/comunidade, inclusive para além das fronteiras paroquiais. Para “alcançar todas as periferias” é preciso sair dos limites que demarcam a ação [inclusive aqui os limites canônicos].

Outros desafios apontados paras as CEBs nas Cidades refere-se à (i) “agenda do desenvolvimento integral dos povos”, em comunhão com a defesa incondicional da Casa comum; (ii) a harmonização cultural-religiosa, em resposta às intolerâncias que sangram o Evangelho de Cristo; e à (iii) comunhão tríplice entre a Palavra, Sacramentos e a Caridade. Sendo a Caridade o caminho metodológico-pastoral de sociotransformação das estruturas sociais-políticas-econômicas que geram os “cinturões de miséria”.

Para refletir e dialogar:
E na sua comunidade quais caminhos são estratégicos percorrer para que enquanto CEBs possam responder as necessidades/urgências pastorais do nosso tempo?