Falando do Luto – Palavra de Dom Peruzzo

dom-peruzziÉ a primeira vez que escrevo sobre este tema. A proximidade do dia de Finados o explica. Mas faço-o atendendo a um pedido. Inevitavelmente, antes ou depois, eis o que a vida nos reserva: teremos que lidar com a morte dentro da nossa casa. É o que nunca desejamos, mas é também uma das mais consolidadas certezas da vida. E qualquer luto anuncia outra certeza: a da nossa partida.

Parece uma temática repulsiva, acerca da qual ninguém tem apreço em abordar. Mas o realismo da vida e da morte não nos autoriza a ignorar. O luto é na sua realidade mais simples uma profunda experiência de dor, causada pela perda ou morte de alguém que amamos. Quem passa a conhecer este sofrimento, sempre fala que é mais intenso do que o imaginado. Somente a experiência permite conhecer sua profundidade. Comporta perdas, vazios, saudades, percepções da própria pobreza e muitas perguntas sem respostas.

Ante a realidade dramática da perda de alguém que amamos a tristeza parece desfigurar tudo: a vida não tem sentido, as conquistas se tornam insignificantes, as relações não substituem o vazio aberto, as grandes causas já não têm nenhuma grandeza. São dias sem caminhos. Somente a fraqueza é “grande e forte”. Mas, paradoxalmente, quando respeitados os dias de luto, ele mesmo faz emergir perguntas decisivas acerca da vida. Para quem, em favor de quem queremos vivê-la?

Ainda outras indagações podem aflorar e seguir seu curso. E para quem crê, ou melhor, para quem quer fazer de sua vida uma grande resposta a Deus, até a morte, com suas dores e temores, passa a ter sentido. Em tal contexto, cada cristão pode se deixar perguntar: onde vou passar a eternidade? Não se trata de um interrogativo de tipo curiosidade intelectual. Antes, é uma realidade que se impõe até mesmo quando queremos ignorá-la. Quem crê na eternidade faz certas opções de vida. Quem duvida fará outras.

Para nós cristãos crer na ressurreição de Jesus Cristo e na nossa ressurreição com Ele não diminui a dor e a tragédia da morte. Nem do luto. Mas não se trata de evitar o que é inexorável. Trata-se sim de conferir sentido ao que seria, se faltasse a fé em Jesus Cristo, apenas término e desaparecimento. Nem as maiores homenagens póstumas restituem a vida. Segue que a lide com a morte e a vivência do luto podem nos aproximar do que é essência e fundamento: a que e a quem consagramos a vida?

Comecei pelo luto, é verdade. Mas fixar-se apenas nele, como se se tratasse apenas de uma fase da vida, superável dentro do tempo, equivaleria tão somente a adiar as grandes verdades da existência pessoal. O sucesso não vence a morte. As conquistas e triunfos também não. Permanece, pois, o caminho da reflexão honesta e realista. Neste mês de novembro, no qual o Dia de Finados e de todos os Santos estão em sequência, outra vez se apresenta a graça de renovar projetos de vida, aqueles que nos aproximam de Quem é maior do que a morte.

Dom José Antonio Peruzzo