>
>
Francisco, o primeiro em muitas coisas | Artigo por Diogo Pessoto

Ao tomar conhecimento da páscoa de Francisco, subitamente veio-me o seguinte pensamento/sentimento: devo render graças a Deus por ter vivido

Francisco, o primeiro em muitas coisas | Artigo por Diogo Pessoto

Ao tomar conhecimento da páscoa de Francisco, subitamente veio-me o seguinte pensamento/sentimento: devo render graças a Deus por ter vivido os anos de pontificado de Francisco, pois certamente as décadas que virão tratarão de reconhecer a grandeza, a ousadia e a singularidade do pastoreio exercido pelo primeiro latino-americano a tornar-se Bispo de Roma.

Passados alguns minutos, vi-me motivado a refletir sobre tal pensamento/sentimento e, sem pretensões racionalizantes – mas em espírito de prece – imagino que fui me aproximando de um horizonte de sentido: privilegiados somos por ter convivido com Francisco porque ele foi o primeiro em muitas coisas na história recente da Igreja:

  • O primeiro a ser eleito Pontífice com seu antecessor ainda em vida
  • O primeiro Papa jesuíta
  • O primeiro latino-americano
  • O primeiro a assumir o nome de Francisco
  • O primeiro a generosamente pedir ao povo que rezasse por ele, o novo Bispo de Roma
  • O primeiro a residir na Casa Santa Marta
  • O primeiro, desde os últimos, que não participou das Sessões do Concílio Vaticano II
  • O primeiro a assinar uma Encíclica (Lumen Fidei) a duas mãos com seu antecessor
  • O primeiro a constituir um Conselho de Cardeais para o auxiliar no governo da Igreja
  • O primeiro que não tinha o costume de cantar nas celebrações litúrgicas
  • O primeiro e proclamar um Jubileu Extraordinária sob o tema da misericórdia
  • O primeiro a visitar alguns territórios (Iraque, por exemplo)
  • O primeiro a posicionar mulheres em funções de liderança na Cúria Romana
  • O primeiro a utilizar ostensivamente expressões metafóricas (“Igreja em saída”, “cheiro de ovelha”, etc)
  • O primeiro a convocar um Sínodo sobre a região amazônica
  • O primeiro a assinar uma Declaração acerca da fraternidade universal com uma liderança islâmica
  • O primeiro a visitar uma Igreja Valdense, na Itália, depois de 800 anos
  • O primeiro a se encontrar com o Patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Kirill
  • O primeiro a rezar solitário pela humanidade durante a pandemia de COVID-19 na Praça São Pedro
  • O primeiro a convocar um percurso sinodal de 4 anos, envolvendo todo o Povo de Deus, sobre o tema da sinodalidade
  • O primeiro que fez sua páscoa sem ter regressado a seu país de origem, a Argentina

Dado esse contexto, não me resta dúvidas de que Francisco desejou sempre “falar” muito mais por seus gestos do que por suas palavras (Francisco e sua “encíclica dos gestos”): daí porque nos parece que todas estas coisas sejam “surpreendentes”, quando, na verdade, não o são, pois o que ela “dizem” está para além das formalidades, da midiatização e das polêmicas – elas são simples e decorrem do coração do Evangelho!

Mas, então, por que nos fascinaria o fato de Francisco ser o “primeiro” em muitas coisas?

A resposta encontra-se em sua primeira Exortação Apostólica, aquela que nos permitiu conhecer o programa de seu pontificado: Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho), publicada em novembro de 2013.

Poderíamos até mesmo hipotetizar que o nome deste Documento foi uma junção de Evangelii Nuntiandi (de 1975, do Papa Paulo VI) e Gaudium et Spes (do Concílio Vaticano II). Se a primeira trata do anúncio do Evangelho no hoje eclesial, a segunda trata da relação da Igreja com o mundo na contemporaneidade. Ora, num mundo complexo e em constante transformação, ser o “primeiro” tem uma razão: a Igreja não pode mais esperar que todos e todas a ela acorram, mas é preciso sair, ir ao encontro, lançar-se, arriscar-se, dar o primeiro passo, “primeirear”.

Eis aí a razão!

No número 24 de Evangelii Gaudium, Francisco afirma que a primeira atitude evangelizadora da Igreja deve ser a de “primeirear”. Ele se desculpa pelo neologismo, mas explica: “A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1Jo 4,10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa!”

Se efetivamente desejamos ser a Igreja de Jesus Cristo, recai sobre nós o imperativo de sermos os “primeiros” – não em sentido de prestígio ou exposição, mas no serviço e no anúncio da vida (e vida em abundância) que brota do Evangelho!

Francisco reafirmou a todo momento: não podemos nos dizer Igreja se renunciamos à missão de evangelizar! Anunciar Jesus Cristo – em suas diversas modalidades – é a razão de ser da comunidade eclesial e isso implica um “primeirear” constante, que não se apega a perfeccionismos, formalismos ou romantismos, mas está pautado na proximidade, na comunhão e numa reforma constante das formas históricas do ser Igreja, sem prescindir de sua natureza profunda e inegociável.

Se nos surpreendemos com os ineditismos de Francisco, talvez seja porque por detrás de suas surpresas há uma experiência da misericórdia de Deus que precede toda a vida de quem se diz cristão, tal como o seu lema episcopal: Miserando atque eligendoVendo com misericórdia e escolhendo! E esta misericórdia se refere, em última análise, ao “primeirear” de Deus, pois é ele quem toma a iniciativa e é segundo esta iniciativa que podemos amar nossos irmãos e irmãs.

Afirma Francisco: “a salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia. Não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Si […] O princípio da primazia da graça deve ser um farol que ilumine constantemente as nossas reflexões sobre a evangelização” (Evangelii Gaudium 112).

O “primeirear” evangelizador de Francisco reside no fato de que “nós amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

__
Por
Diogo Marangon Pessotto
Gerente de Identidade Institucional da PUCPR

Compartilhe

Outras Notícias

Arquidiocese

Giro Paroquial

Notícias relacionadas

Noticias do vicariato da educação

14 de junho de 2026

Continue navegando

Espiritualidade:

Sua experiência diária com a Palavra de Deus

Explore conteúdos que fortalecem sua caminhada e enriquecem
sua jornada de fé.

Receba as novidades da nossa Diocese

Inscreva-se em nossa newsletter e fique por dentro dos avisos, eventos e mensagens especiais da Diocese.