SEMEADOR
Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 48 – 15/03/2026
4º Domingo da Quaresma
“Naquele tempo, 1 ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” 3 Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4 É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo”. 6 Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7 E disse-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. 8 Os vizinhos e os que costumavam ver o cego – pois ele era mendigo – diziam: “Não é aquele que ficava pedindo esmola?” 9 Uns diziam: “Sim, é ele!” Outros afirmavam: “Não é ele, mas alguém parecido com ele”. Ele, porém, dizia: “Sou eu mesmo!” 10 Então lhe perguntaram: “Como é que se abriram os teus olhos?” 11 Ele respondeu: “Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver”. 12 Perguntaram-lhe: “Onde está ele?” Respondeu: “Não sei”. 13 Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: “Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!” 16 Disseram, então, alguns dos fariseus: “Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado”. Mas outros diziam: “Como pode um pecador fazer tais sinais?” 17 E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: “E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?” Respondeu: “É um profeta.” 18 Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista. Chamaram os pais dele 19 e perguntaram-lhes: “Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?” 20 Os seus pais disseram: “Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21 Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo”. 22 Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que seus pais disseram: “É maior de idade. Interrogai-o a ele”. 24 Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: “Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador”. 25 Então ele respondeu: “Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”. 26 Perguntaram-lhe então: “Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?” 27 Respondeu ele: “Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?” 28 Então insultaram-no, dizendo: “Tu, sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. 29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é”. 30 Respondeu-lhes o homem: “Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33 Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada”. 34 Os fariseus disseram-lhe: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade. 35 Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: “Acreditas no Filho do Homem?” 36 Respondeu ele: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” 37 Jesus disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”. Exclamou ele: 38 “Eu creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. 39 Então, Jesus disse: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que vêem se tornem cegos”. 40 Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: “Porventura, também nós somos cegos?” 41 Respondeu-lhes Jesus: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece”.
João 9,1-41.
DEIXAR AS TREVAS E SER LUZ
A liturgia deste domingo é profundamente batismal. Na cura do cego de nascença, a graça e o rito do Batismo aparecem como passagem real das trevas para a luz. O Batismo nos dá a graça de brilhar a luz de Cristo. Por isso, desde a Igreja Primitiva, o recém batizado é chamado de neófito, isto é, novo iluminado. O cego de nascença torna-se, então, figura do iluminado pela luz do Senhor.
Na Bíblia, a escuridão e a cegueira carregam um sinal negativo: desorientação, pecado, vida encoberta, hipocrisia protegida pela sombra. Quem ama as trevas prefere que suas obras não apareçam. Ser cego, no Evangelho, é não reconhecer o Senhor e não se abrir à salvação, como acontece com tantas testemunhas do sinal de Jesus. Por isso, ressoa o apelo de Paulo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz” (cf. Ef 5,8).
Ser curado da cegueira é ter os olhos abertos para a salvação, reconhecer onde estão os valores verdadeiros e superar os vícios das trevas. O cego curado torna-se também um enviado: ele é ungido e orientado a ir até a piscina de Siloé, que significa “Enviado”. Assim também nós: pela graça batismal, somos enviados para iluminar com a luz de Cristo, fazendo o bem e deixando que nossas obras sejam luz no mundo, pela força do Espírito de Deus.
Um detalhe do Evangelho é decisivo para compreender o que significa ser iluminado. Diante da pressão, os pais dizem: “Ele é adulto; interrogai-o vós mesmos” (cf. Jo 9). Eles se protegem pelo medo, mas o curado não se esconde. Ele fala por si, assume a própria história, sustenta o que viveu. A luz de Cristo não apenas faz ver; ela faz crescer. O que é ser adulto educador hoje? É não terceirizar a responsabilidade e não viver de máscaras nem de dependência do aplauso.
Há traços concretos na cura do cego de nascença que revelam notas características de todo batizado. Ele já não é percebido como antes, porque sua vida muda e a conversão se torna visível. Ele não tem medo da verdade: não vende suas convicções, não se curva ao jogo das aparências, prefere pagar o preço de ser expulso a mentir. E ele permanece em atitude de procura: “Quem é ele?” O encontro com Jesus coloca o adulto em caminho de fé, de conhecimento e de testemunho.
Para meditar ao longo da semana
- Deixar-se curar da cegueira: quais escuridões eu venho tolerando em mim, na rotina ou nas relações, que apagam a luz do Evangelho no meu modo de educar?
- Ser adulto: em que ponto eu tenho deixado outros falarem por mim ou decidirem por mim, e qual decisão eu preciso assumir com liberdade e responsabilidade?
- Coragem: onde eu uso máscaras para me proteger, e que verdade eu preciso sustentar com serenidade, sem agressividade ou medo?
Vivência concreta
- Renunciar a uma forma de escuridão (reclamação, ironia, fofoca, comparação, impaciência, indiferença) e substituí-la por um hábito de luz (agradecer, escutar, abençoar, falar a verdade com caridade…).
- Com colegas/direção: escolher uma situação pendente e agir com maturidade: tratar diretamente com quem deve ser tratado, com respeito e clareza, sem corredores, sem indiretas, de modo maduro.
- Com estudantes: escolher uma pessoa com quem você tem mais dificuldade e fazer um gesto educativo de luz: olhar a partir de sua dignidade de pessoa, e oferecer uma nova chance concreta de recomeço.