SEMEADOR
Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 55 – 03/05/2026
5º Domingo da Páscoa
Vicariato para a Educação – Arquidiocese de Curitiba
“Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1 “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, 3 e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. 4 E para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. 5 Tomé disse a Jesus: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” 6 Jesus respondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. 7 Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”. 8 Disse Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” 9 Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? 10 Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. 11 Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. 12 Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”.
João 14, 1 – 12
Há uma célebre passagem mística, atribuída a Mestre Eckhart, que diz: “O olho com que eu vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê. Entre Deus e eu existe um olho, uma força visual, um reconhecer e um amar.” Essa imagem rompe a ideia de um Deus distante, objeto de nossa razão fria. Deus não está “lá fora” como algo a ser alcançado por provas lógicas. Talvez tenha sido essa lógica usada por Filipe quando disse: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta” (Jo 14,8). Partindo desta indagação, podemos perceber um ponto de partida por meio da resposta de Jesus, que permite a ele (Filipe) uma referência interior, uma força visual que nos permite perceber o mundo e a nós mesmos de modo novo.
Pascal já nos lembrava: “O coração tem razões que a própria razão não conhece.” Não se trata de negar a inteligência, mas de reconhecer que a experiência profunda de Deus não se reduz a conceitos. É encontro, afeto, direção. E é aí que a educação, tantas vezes reduzida a técnicas e metas mensuráveis, pode reencontrar sua alma.
Mas como Deus entra em nossa vida? Como experimentá-lo, se vivemos tempos de incerteza e insegurança globais? A resposta não vem de um espetáculo celestial, mas da escuta e do acolhimento de uma palavra que nos é dirigida: “Não fique perturbado o coração de vocês.”.
Nesse ponto, lembro-me de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Severino é o homem comum, um Adão qualquer, provado pela dureza da vida. Ele caminha em busca de uma solução que não encontra. O sonho, o esforço, o afeto que depositamos no mundo nem sempre são retribuídos. Severino somos nós, nossos alunos, nossos professores, nossas famílias. Todos em alguma medida peregrinos de uma demanda que parece não ter fim.
Aqui se encontra um ponto fundamental para a educação. Se a escola se limita a transmitir conteúdos e treinar habilidades, ela forma executores eficientes, mas não humaniza. Sem diálogo, não há encontro. Sem encontro, não há reconhecimento do outro como sujeito. Sem reconhecimento, não há experiência de Deus, pois Deus se revela na relação.
Educar, então, é também ensinar a não se turbar. É ajudar o outro a encontrar, dentro de si, o olho com que Deus o vê. É criar espaços onde o coração possa ter suas razões sem ser sufocado pela pressa e pelo desempenho. É dizer ao Severino que há vida para além da morte, que a travessia tem sentido, ainda que o caminho seja árido. Não se trata de poder mágico, mas de uma confiança ativa. O mesmo olho que vê Deus torna-se força visual para agir no mundo. E que maior obra, hoje, do que educar para a humanização, ensinando a escutar, a acolher, a não desistir?
Que possamos, educadores e educandos, aprendizes da vida, deixar que nosso coração não se turbe. Pois Deus não está lá fora. Ele é o ponto de referência a partir do qual toda a educação se torna, enfim, encontro.
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