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O SEMEADOR | Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 60 – 07/06/2026

SEMEADOR Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 60 – 07/05/2026 10º Domingo do Tempo Comum Vicariato para a Educação

O SEMEADOR | Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 60 – 07/06/2026

SEMEADOR

Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 60 – 07/05/2026

10º Domingo do Tempo Comum

Vicariato para a Educação – Arquidiocese de Curitiba

“Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.

Mateus 9, 9-13.

 

Talvez seja preciso ler este Evangelho devagar, porque a cena carrega uma delicadeza quase invisível. Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria de impostos e o chama. O texto não nos diz se Mateus estava arrependido, cansado, acomodado ou endurecido. Não abre o coração dele para nós. Mas mostra algo essencial: antes de qualquer correção, antes de qualquer julgamento, antes de qualquer explicação religiosa, Jesus vê um homem. Vê a pessoa inteira, e não apenas o pedaço dela que incomodava os outros.

Essa é uma luz importante para quem educa. Muitas pessoas chegam até nós machucadas, incompletas, mostrando apenas uma parte do que vivem. E, muitas vezes, por cansaço ou pressa, respondemos a elas olhando apenas essa parte. O aluno vira “o difícil”. A turma vira “a impossível”. A família vira “a complicada”. Não por maldade, mas porque a rotina aperta, as demandas se acumulam e já não sobra tempo interior para perguntar o que existe por trás daquilo que aparece. A criança desatenta talvez tenha medo de errar. O adolescente agressivo talvez use a agressividade como escudo. A família resistente talvez carregue dores que não sabe nomear. E o próprio educador talvez também esteja preso em algum lugar interior: na impaciência, no desencanto, na sensação de que já viu de tudo e nada muda.

Jesus rompe esse jeito estreito de olhar. Ele vê Mateus inteiro e, justamente por isso, pode chamá-lo. O “segue-me” não é uma sentença, é uma porta. Não diz: “você é isso”. Diz, de outro modo: “você ainda pode caminhar”. Jesus sabe onde Mateus está sentado e conhece o peso daquela mesa. A misericórdia de Cristo não é fingir que nada está errado. É uma verdade que chega de um jeito capaz de levantar, e não de paralisar. Por isso Mateus se levanta. O gesto é pequeno no texto, mas imenso na vida: o encontro com Jesus não o deixou onde estava.

Talvez educar seja, muitas vezes, abrir essa passagem na vida de alguém. Não moldar pessoas como se fossem objetos, não controlar tudo, não reduzir a educação a desempenho, disciplina e conteúdo, mas ajudar a reunir o que nelas está disperso, ferido, escondido, perdido de si. Porque ninguém é apenas aquilo que demonstra. Quando a educação esquece isso, ela até pode funcionar por fora, mas perde alma por dentro. Ensina conteúdo sem ensinar compreensão. Mede, compara e cobra, mas já não consegue perguntar: que coração está diante de mim? Que história está tentando falar através deste comportamento? Que sofrimento está aparecendo disfarçado?

Depois do chamado, Jesus se senta à mesa, na casa de Mateus, no meio de cobradores de impostos e pecadores. E é aí que algo sagrado acontece. Não o sagrado protegido pela distância, mas o sagrado que se aproxima e cura. A mesa se torna lugar de encontro, de presença e de reconstrução. Jesus não cura de longe. Ele entra, senta, partilha a vida, aproxima-se o suficiente para que a verdade possa ser recebida sem destruir quem a escuta.

Essa imagem ilumina profundamente a missão educativa. A sala de aula, o corredor, a reunião com os pais, a conversa difícil com um estudante, o cuidado com um colega cansado, tudo isso pode ser apenas rotina institucional. Mas também pode se tornar mesa. Pode se tornar lugar onde alguém deixa de ser caso e volta a ser pessoa. Há mesas que curam, e quase nunca são bonitas ou fáceis. Às vezes são uma escuta que demora mais do que o planejado, uma correção feita sem ironia, uma palavra firme dita sem humilhação, uma nova chance oferecida com responsabilidade.

Jesus cura por estar perto, não por aprovar tudo. A presença dele não banaliza o erro, mas cria o clima em que a verdade pode ser ouvida. Essa é uma sabedoria fundamental para quem educa: há verdades que, ditas sem amor, fecham o coração; as mesmas verdades, dentro de uma relação de confiança, podem abrir caminho. A misericórdia sem verdade acomoda, mas a verdade sem misericórdia endurece. O Evangelho mantém as duas unidas: Jesus acolhe Mateus e o chama; senta-se à mesa e abre caminho; aproxima-se e transforma.

Os fariseus se incomodam e perguntam por que Jesus come com cobradores de impostos e pecadores. No fundo, é uma pergunta séria: como ser fiel a Deus num mundo tão ferido, confuso e marcado pelo pecado? Jesus não nega a seriedade do mal. Ele apenas desloca o centro. A santidade de Deus não aparece como medo de contato, mas como força de cura. “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes.” O Cristo que passa por Mateus é o médico que alcança a vida onde ela adoeceu.

Quem educa encontra essas doenças todos os dias, muitas vezes sem nome. Ansiedade que parece agitação. Abandono que parece rebeldia. Insegurança que parece deboche. Tristeza que parece indiferença. E também encontra as próprias doenças interiores: a impaciência que virou hábito, a rigidez que se chama de responsabilidade, a distância que parece profissionalismo, mas às vezes é apenas um jeito de não sofrer de novo.

Por isso Jesus diz: “Quero misericórdia e não sacrifício.” Não é uma frase contra a disciplina, contra a responsabilidade ou contra a exigência. É uma purificação de tudo isso. A regra sem misericórdia pode virar peso. A correção sem misericórdia pode virar violência. A exigência sem misericórdia pode esmagar justamente quem mais precisava ser levantado. Mas a misericórdia verdadeira também não abandona ninguém no lugar onde está ferido. Ela chama, acompanha e abre futuro.

A missão educativa precisa dessa sabedoria. Não escolher entre firmeza e ternura, mas viver uma firmeza que não perca a ternura. Não escolher entre limite e acolhida, mas oferecer um limite que proteja e uma acolhida que não acomode. Não escolher entre verdade e amor, mas deixar que a verdade passe pelo amor para poder alcançar o coração.

No fim, Mateus se levanta e segue Jesus. Talvez seja essa a imagem que precisamos guardar: um homem sentado, visto por inteiro, chamado pelo nome e devolvido ao caminho. Não porque alguém ignorou seus erros, mas porque alguém enxergou além deles. Não porque a verdade foi retirada, mas porque a verdade veio acompanhada de uma misericórdia capaz de abrir futuro.

Antes de fazer isso pelos outros, o educador também precisa permitir que Cristo faça isso por ele. Que Jesus entre nas suas próprias coletorias interiores, nos lugares onde o coração se sentou, cansou ou endureceu. Que Ele olhe para cada educador não apenas como alguém que precisa dar conta de tudo, mas como pessoa que também precisa ser cuidada, levantada e chamada de novo.

Porque ninguém educa em profundidade sem ser, continuamente, reeducado pelo olhar de Cristo.

Para meditar ao longo da semana

  1. Quando encontro as pessoas da minha missão educativa, especialmente as mais difíceis, ainda consigo vê-las inteiras ou já as reduzi ao rótulo que me cansa?
  2. Nas minhas correções, existe algo da medicina de Cristo, algo que ajuda a levantar, ou elas apenas aumentam a vergonha, a distância e a sensação de fracasso?
  3. Que parte de mim também está sentada numa coletoria interior, presa ao cansaço, à impaciência ou ao desencanto, precisando ouvir Jesus dizer novamente: “Segue-me”?

Vivência concreta

Escolha, nesta semana, uma pessoa diante de quem o seu olhar já ficou armado: um aluno, uma família, um colega, alguém que desperta em você impaciência ou desânimo.

Antes de falar, corrigir ou decidir, faça uma pausa breve e peça a Deus a graça de enxergar essa pessoa inteira. Peça para ver o nome antes do rótulo, a história antes do comportamento, o coração antes da ferida.

Depois, aproxime-se de modo real: escute com menos pressa, corrija sem humilhar, reconheça algo bom, ofereça uma nova chance com responsabilidade. Que a sua presença não seja apenas cobrança, mas também sinal de caminho, para que alguém possa acreditar novamente que é possível se levantar.

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