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TESTEMUNHO: A fé não cabe numa caixinha

Homenagem à Alessandra Nicolosi da Silveira, catequista que nos deixou em abril de 2025 e foi grande exemplo de leiga,

TESTEMUNHO: A fé não cabe numa caixinha

Homenagem à Alessandra Nicolosi da Silveira, catequista que nos deixou em abril de 2025 e foi grande exemplo de leiga, devota, mãe e esposa.

Uma caixinha de recordações da igreja estava na gaveta, repleta de memórias. Em meio ao seu Livro do Catequista do ano passado, dois papeizinhos coloridos se destacavam: o primeiro, azul, continha nomes de pessoas que à levaram até Jesus. Em evidência estavam escritos “Tia Clara”, “Minha avó”, “Padre Reginaldo Manzotti” e “Frei Ivo OCD”.

Alessandra Nicolosi da Silveira nasceu em Borrazópolis, no norte paranaense, numa família muito humilde. A primeira de seis filhos, teve que aprender a ser adulta ainda criança, pois a mãe adoeceu e o pai trabalhava fora a maior parte do dia para garantir o sustento da casa. Também devido às mudanças de cidade, o lar não era tão apegado à fé. Ao vir para Curitiba (PR), Tia Clara foi a responsável por enviar a sobrinha ao primeiro retiro católico e adentrar numa rotina espiritual mais fortalecida. Era curioso: apesar de muitas vezes as circunstâncias não ajudarem, Alessandra sempre dava um jeitinho de ficar perto de Deus, nem que fosse ao ouvir sobre Ele pelas falas da avó paterna. Se encantava tanto em ter o Senhor nos ouvidos e no coração que, anos depois, parecia decorar as homilias de Frei Ivo e do Padre Reginaldo, este de quem era uma das fãs pioneiras na carreira artística do Sacerdote.

Conforme o tempo passava, a sede pela Palavra de Deus deu lugar à busca concreta pela Água Viva. Encontrou Nilson, que a apresentou a Paróquia Nossa Senhora das Vitórias, no Boqueirão. Fez os Sacramentos pelo Catecumenato, casou-se e ali, diante do Altar, a promessa de uma nova família começou.

O outro papel, que estava em meio ao seu Livro de Catequista, era um amarelinho. Nele, estavam os nomes de quem Alessandra gostaria de evangelizar. Em ordem, colocou: “meus filhos, meus pais e meus catequizandos”. O nome do marido não estava, pois sabia que ele estava junto à ela no caminho da fé. Sua missão era transmitir o amor de Deus a quem estava naquela lista, e fazia de maneira incansável, natural e digna.

Mesmo nos desafios da maternidade (sendo uma delas atípica) e na necessidade de trabalhar, no começo dos anos 2000 encontrou tempo para começar sua caminhada como catequista. Tinha tudo anotado na agenda e via ali uma possibilidade de mostrar o quanto era boa uma vida baseada no Pai.

Queria servir na paróquia e sempre encontrava uma forma de se fazer presente. Estava nas celebrações, colaborava na Liturgia, fazia a Capelinha peregrinar e muito mais. Deixou a Pastoral da Catequese e, anos depois, sua vocação ardeu novamente no coração. Tudo corria bem, até ter um AVC hemorrágico em 2021. Ficou debilitada, com dificuldades de locomoção e uso de fraldas, mas continuava incansável. Um de seus maiores reforços, logo após sair do hospital, era: “não quero deixar as crianças”. Aos poucos, retornou para sua turma, com carinho especial pela segunda etapa, e era aquele tipo de catequista que entendia o valor de falar, mas mais ainda o de conversar e o de ouvir. Os filhos brincavam que ela acostumava mal os pequenos, pois todo sábado de manhã era sagrado levar achocolatado, bolo ou outros quitutes para compor o encontro.

A evangelização de Alessandra se dava pelo exemplo. Nunca foi o tipo de mãe que obrigava os filhos a irem à igreja, menos ainda assustava os catequizandos com broncas. Os filhos iam naturalmente, as crianças idem, pois demonstrava o quão legal era fazer parte de uma comunidade e o quanto valia a pena estar com Jesus. Era comum vê-la tão feliz ali ao ponto de querer participar também. E não apenas nas festas ou confraternizações: ia sorrindo naquelas celebrações em que muita gente reclama por demorar. Ela dizia: “passou que nem vi”.

Sua vivência em comunidade parecia plano de Deus. E deve ter sido, mesmo. Começou a frequentar a Pequena Comunidade Sagrado Coração de Jesus numa novena de Natal, logo que o grupo iniciou na Paróquia, após incentivo do Frei Tiago Backes. A família foi junto e, graças ao primeiro passo de Alessandra, uma grande rede de apoio foi criada, com 10 anos de existência em 2025. Inspirada em Santa Mônica, nunca cansou de rezar para que a conversão real acontecesse no coração de seus amados, em especial, aos do papelzinho amarelo. Sofria ao ver os pais afastados da igreja, mas jamais deixou de pedir por eles em suas orações diárias, seja as pessoalmente, seja as pela Rede Evangelizar de Comunicação, canal que era padrão em sua casa. Era tão fã da emissora e grata ao Padre Reginaldo ao ponto de, ao ver a filha do meio formada em Jornalismo, pedir ao Céu que seu emprego fosse com o Sacerdote. E o desejo se cumpriu.

Ela contava que, quando teve o AVC, havia sido desenganada pelos médicos, mas brigou com Deus na UTI, pois dizia que sua missão ainda não havia sido cumprida. Ainda tinha que evangelizar, incentivar, terminar de criar o que tinha começado. Após voltar do hospital, parecia estar mais focada no caminho da fé, mais devota, mais intensamente amiga de Jesus e de Nossa Senhora. Acolhia os Santos no modo de viver e aprendia, a cada dia, a ser como eles, por legado e em busca da vida eterna. Aproveitou sua segunda chance não apenas para colocar um tijolinho no Céu: fez uma moradia inteira.

Hoje, uma das coisas mais belas que disseram à família é que Alessandra, por construir tão bem sua casa celeste, foi antes para prepará-la à família. Ela cuidava com tanto zelo do lar e de quem amava ao ponto de ir na frente. Faleceu dormindo no dia 26 de abril de 2025, com um semblante de paz que denunciava a missão cumprida de seu coração. Deixou um vazio imenso na rotina dos que ficaram, mas uma trajetória que jamais se apagará.

Se foi uma semana após o Sábado de Aleluia. Foi velada no Domingo da Misericórdia. Sua Missa de Sétimo Dia foi justamente na primeira sexta-feira de maio, quando celebra-se o Sagrado Coração de Jesus, nome da Pequena Comunidade que tanto amava e deixou como herança aos filhos e ao marido, sendo este grupo e toda a Paróquia das Vitórias o maior fortalecimento espiritual que a família encontrou neste momento tão delicado. Seu velório contou com mais de quatro terços rezados, incontáveis homenagens, incluindo das crianças que ela catequizava. Seu trajeto à morada eterna foi embalado por músicas marianas, tão quistas por Alessandra, com um mar de gente que se perdia de vista no caminho. Foram suas colegas catequistas e sua filha que levaram a urna ao túmulo. Foram as catequistas que limparam o quarto em que ela repousara ao ser encontrada, num ato de amor e humildade tão bonitos quanto os lidos na Liturgia das semanas anteriores.

Alessandra parece ter descansado só depois de cada filho estar em uma Pastoral. Os três na Pequena Comunidade, um coroinha, uma na Pascom. O marido, além do grupo de oração, faz parte do Terço dos Homens. Ela, uma incansável catequista, Mensageira da Capelinha, devota de Santa Teresinha e apaixonada por Jesus e Maria.

Ela, que tanto rezava na Terra, hoje intercede no Céu.
Não viu o Papa Leão XIV assumir o posto, mas com certeza abraçou Francisco na eternidade. Chorou por sua morte, festejou ao compartilhar com ele o Reino de Deus.

Uma homenagem àquela que representou a vocação leiga com maestria e deixou um legado inesquecível na vida de muitos irmãos e irmãs.

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Por
Larissa Nicolosi da Silveira
Filha da Alessandra Nicolosi da Silveira 

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