SEMEADOR
Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 65 – 12/07/2026
15º Domingo do Tempo Comum
Vicariato para a Educação – Arquidiocese de Curitiba
1Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. 2 Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. 3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5 Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6 Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7 Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8 Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9 Quem tem ouvidos, ouça!”
Mateus 9, 9-13.
Talvez seja preciso escutar esta parábola como se fosse a primeira vez. Nós a conhecemos bem demais, e o que se conhece demais quase sempre deixa de ser ouvido. Por isso Jesus termina com um pedido simples e, no fundo, exigente: “Quem tem ouvidos, ouça.” Não basta escutar as palavras. É preciso deixá-las cair dentro.
A cena já diz muito. Jesus vai sentar-se à beira do mar, a multidão se aproxima, e ele entra numa barca para falar a todos. Não espera que as pessoas venham até um lugar preparado: ele vai até onde elas estão e começa a semear palavras. Já há uma pedagogia nisso: a verdade não precisa de um cenário perfeito para ser dita; precisa de alguém disposto a chegar perto.
E então vem a imagem central: um semeador que sai a semear e lança a semente por toda parte. É aqui que a parábola surpreende. Ele não separa antes o bom terreno do ruim, não calcula onde vale a pena gastar a semente: joga à beira do caminho, no meio das pedras, entre os espinhos e também na terra boa. Há uma generosidade quase desmedida nesse gesto, quase um desperdício. Deus semeia assim: sem calcular quem merece, sem reservar o melhor apenas para os terrenos garantidos.
Quem educa conhece bem esse risco. Educar é semear sem controlar onde a semente vai cair. A gente ensina, corrige, acompanha, cuida — e nem sempre sabe o que acontece depois: quem vai guardar aquilo, quem vai esquecer no dia seguinte, quem vai lembrar daqui a vinte anos. Se esperássemos a garantia do resultado para só então nos dedicar, não semearíamos nunca. O amor educativo, como o gesto do semeador, se derrama antes de saber o retorno.
Depois a parábola fala dos terrenos, e aqui é preciso cuidado. É tentador transformar os quatro tipos de terra numa lista para classificar pessoas: este aluno é a beira do caminho, aquele é o pedregoso, a outra é a terra boa. Mas isso seria trair a parábola. Os terrenos não são rótulos fixos, são estados de um coração num momento da vida. A criança distraída de hoje pode ser o solo profundo de amanhã. E nós mesmos, educadores, passamos por todos esses terrenos ao longo da vida.
Vale olhar cada solo com ternura, e não com julgamento. A beira do caminho é o coração endurecido pela pressa, onde a palavra nem chega a entrar antes de ser levada embora. O terreno pedregoso é o entusiasmo sem raiz, que se anima depressa e desiste no primeiro calor. Os espinhos são as preocupações que sufocam: a ansiedade, o excesso, as mil urgências que não deixam nada crescer em paz. Não são pecados de gente má, são as condições reais em que vivem as pessoas que educamos — e, muitas vezes, também as nossas.
Porque o educador também é terreno. Antes de ser semeador, ele é chão onde algo precisa ser semeado. Há dias em que estamos endurecidos como o caminho, sem espaço para mais nada. Há fases em que nos entusiasmamos com um projeto e desistimos quando esquenta. Há tempos em que os espinhos das preocupações sufocam em nós a própria alegria de ensinar. Reconhecer isso não é fraqueza, é o começo da verdade. Não dá para cuidar da terra dos outros ignorando a própria.
E há algo que a parábola não diz com todas as letras, mas deixa entender: o semeador não faz a semente crescer. Ele semeia, e o crescimento pertence a outro. Essa é uma das lições mais difíceis e mais libertadoras para quem educa. Nós semeamos; o fruto não está inteiramente em nossas mãos. Há uma parte que é nossa — chegar perto, lançar a semente, cuidar do que for possível — e uma parte que é de Deus e do tempo. Quantas vezes plantamos sem nunca ver a colheita. Um professor pode marcar uma vida inteira e jamais saber. A semente que parecia perdida pode brotar muito depois, num terreno que só amadureceu com os anos.
Talvez por isso a parábola termine com números tão generosos: cem, sessenta, trinta por um. A colheita é desproporcional à semeadura. E é bonito que nem todo fruto seja igual: Deus não exige de todos a mesma medida. Cada terra boa dá o que pode dar, e tudo é acolhido. Isso consola o educador cansado, que às vezes sente que semeia no vazio. Nem toda semente se perde. Em algum lugar, muitas vezes escondido dos nossos olhos, alguma coisa está criando raiz.
No fim, o pedido de Jesus volta e nos alcança: “Quem tem ouvidos, ouça.” Antes de semear nos outros, o educador precisa deixar que a Palavra seja semeada nele. Precisa tornar-se, ele mesmo, terra boa: um coração que ouve, que se deixa revolver, que não deixa a pressa levar tudo embora nem os espinhos sufocarem o essencial. Ninguém semeia bem aquilo que não deixou crescer em si.
Que Cristo, o Semeador que sai ao encontro, chegue perto de cada educador e lance nele a sua semente. Que encontre, no meio das pedras e dos espinhos de qualquer vida cansada, um pedaço de terra boa disposto a acolher. Porque de um coração assim, mesmo pequeno, mesmo cansado, Deus ainda faz nascer muito mais do que se plantou.
Para meditar ao longo da semana
Quais são, hoje, os terrenos do meu próprio coração diante da missão de educar: onde estou como beira do caminho, onde como pedra, onde como espinho, e onde ainda sou terra boa?
Consigo semear sem exigir a garantia do resultado, confiando que parte da colheita não depende de mim e talvez eu nunca a veja?
Que espinhos — preocupações, pressas, excessos — estão sufocando em mim a alegria de ensinar e a paz de acompanhar as pessoas?
Vivência concreta
Escolha, nesta semana, um gesto de semeadura sem retorno garantido: uma palavra de incentivo a um aluno que talvez não a valorize agora, um tempo a mais com alguém difícil, um cuidado silencioso com um colega cansado. Faça-o sem cobrar de si o resultado; em oração, entregue essa semente a Deus, reconhecendo que o crescimento não está nas suas mãos.
E reserve um momento para cuidar da sua própria terra: um instante de silêncio, uma leitura orante do Evangelho, uma pausa para deixar a Palavra cair dentro. Antes de semear, deixe-se semear.