A Serva de Deus Elisabeth Leseur, em breve frase, porém com profundidade, ajudou a refletir com largueza a necessidade de não exaltar a baixeza: “Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”. Compreendeu esta amável esposa francesa, que tanto orou pela conversão do marido, que somente assim, com pensamentos e ações mais nobres “aspirando as coisas do alto e não as terrenas” (Col. 3,2) existiria a possibilidade de possuir os mais elevados sentimentos de estima e apreço para com o Bem que de Deus provém, e então “construir o homem novo”. Hoje, a Igreja Esposa de Cristo, também almeja a conversão dos chamados a incorporar-se ao Esposo, os que “Ele escolheu para darem frutos” (Jo 15,16) a fim de que possam “vestir-se da nova humanidade” (Ef 4,24). Este é o espírito da proposta da Igreja Católica no Brasil para as reflexões de Setembro, o Mês da Bíblia.
Tal qual no Diálogo do Senhor com Nicodemos, necessário se faz contemplar e enlevar-se dos Sinais que o próprio Mestre opera a cada dia. A pós modernidade oferece muitas opções, mas para o cristão presente no cotidiano como “fermento na massa” (GS) uma grande oportunidade irrecusável é oferecida próprio Jesus Cristo: “Eu te asseguro que, se alguém não nascer de novo, não poderá ver o Reinado de Deus” (Jo 3, 3).
Tão bem o Espírito Santo já inspirara os padres no Concílio Vaticano II: “Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta, como criatura que é, multiplamente limitado, por outra sente-se ilimitado nos seus desejos, e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes aquilo que não quer e não realiza o que desejaria fazer. Sofre assim em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para a sociedade” (cf. Gaudium et Spes, n. 10).
E que rumo então tomar? Como clarear as opções?
Diz Jesus que “quem procede lealmente aproxima-se da luz, para que se manifeste que procede movido por Deus” (Jo 3,21). Portanto, eis o momento de renovar a fé, para crescer na lealdade com o Senhor: “Sem fé é impossível agradar. Quem se aproxima de Deus deve crer que (Ele) existe e recompensa os que o procuram” (Heb 11,7).
O Papa Francisco apresenta na Evangelii Gaudium um exemplo muito prático e útil para o Seguimento de Jesus Cristo, dando então sentido à caminhada de Fé, para elevar-se e ao mesmo tempo aprender a ser simples e generoso, como meta de configuração ao Mestre: “Toda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus gestos, a sua coerência, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente, a sua total dedicação, tudo é precioso e fala à nossa vida pessoal. Todas as vezes que alguém volta a descobri-lo, convence-se de que é isso mesmo o que os outros precisam, embora não o saibam: ‘Aquele que venerais sem O conhecer, é Esse que eu vos anuncio’ (At 17, 23). Às vezes perdemos o entusiasmo pela missão, porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades mais profundas das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o Evangelho nos propõe: a amizade com Jesus e o amor fraterno. Quando se consegue exprimir, de forma adequada e bela, o conteúdo essencial do Evangelho, de certeza que essa mensagem fala aos anseios mais profundos do coração: ‘O missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente – de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à liberação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de Cristo deriva da convicção de responder a tal ânsia’ ” (cf. EG, n. 265).
Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma. e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4,23- 24).
Tal trecho bíblico é por demais válido como iluminador ao tempo hodierno, e por isso mesmo, torna-se provocativo no mês da Bíblia (Ler Efésios 4, 17-24). Ele inspira a lançar-se nas mãos de Deus com confiança, sem medo de tornar reais na própria vida as motivações cristãs. Foi isso que compreendera, por exemplo, Santa Teresinha do Menino Jesus. Mesmo vivendo e sofrendo apenas dentro do convento, esteve atenta às novidades de seu tempo. Acompanhou que naquela época os elevadores começavam a ser usados em larga escala. E então disse: “Vosso braços são o elevador que deve elevar-me até o céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais. Ó meu Deus, superastes minha expectativa e quero cantar as vossas misericórdias”.
A pequenez diante de Deus é crescimento, pois a humildade leva o cristão a elevar-se. Ao mesmo tempo em que se reconhece limitado, conhece, no entanto, a possibilidade de viver com “equilíbrio, justiça e piedade” (Tito 2,12). Eis a chance de uma “elevação” junto a Jesus Cristo, “homem imagem do Deus invisível e cabeça da nova humanidade” (I Col 1, 15-22) Estando com ele não tem como deixar de “vestir-se de uma nova humanidade” (Ef 4,24).
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Texto escrito por Padre Fabiano Dias Pinto
Reitor do Seminário Teológico Rainha dos Apóstolos da Arquidiocese de Curitiba