Por ocasião do 5º Jornada Mundial dos Avós e das Pessoas Idosas, o Papa Leão XIV escreveu uma mensagem para toda a Igreja. Tendo essa mensagem como referência, reflitamos sobre o tema do envelhecimento que deve sempre permear os debates sobre a dignidade da pessoa humana na Igreja e na sociedade.
O Sumo Pontífice nos recorda que “na Bíblia, Deus mostra várias vezes a sua providência dirigindo-se a pessoas idosas. Foi o que aconteceu a Abraão, Sara, Zacarias, Isabel e também com Moisés, chamado a libertar o seu povo quando tinha oitenta anos (cf. Ex 7, 7). Com estas escolhas, Ele nos ensina que, aos seus olhos, a velhice é um tempo de bênção e graça […] para Ele, os idosos são as primeiras testemunhas da esperança”.
A Boa Nova anunciada por Jesus Cristo é essencialmente uma mensagem de esperança, sobretudo esperança na vida eterna, quando nos realizaremos em plenitude. Acolher essa
mensagem é encarar com serenidade e fortaleza essa etapa final da caminhada da vida.
Segundo o papa, Santo Agostinho, ao refletir sobre o que Deus diria sobre o tempo da velhice à uma pessoa idosa, escreveu: “Ó, que a tua força desapareça de verdade, para que em ti
permaneça a minha força e possas dizer com o Apóstolo: quando sou fraco, então é que sou forte”.
As fraquezas de toda ordem que acometem os idosos, não são vistas por Santo Agostinho como um fator limitante, mas como uma oportunidade de crescimento na graça. Ao citar São Paulo, ele nos lembra que nos momentos de fragilidade estamos mais abertos à ação divina em nossa vida. Longe das nossas próprias forças, recorremos à onipotência divina que completa em nós de forma mais perfeita o que nossa fraqueza não nos permite alcançar e nos dá o que verdadeiramente precisamos. Por isso, se nos deixarmos guiar pelo Espírito, são nesses momentos, e mais ainda nessa etapa da vida, que mais nos moldamos à Cristo.
Em sua mensagem, o papa também nos convida a seguinte reflexão: “se é verdade que a fragilidade dos idosos precisa do vigor dos jovens, é igualmente verdade que a inexperiência dos jovens precisa do testemunho dos idosos para projetar o futuro com sabedoria. Quantas vezes os nossos avós foram para nós um exemplo de fé e devoção, de virtudes cívicas e compromisso social, de memória e perseverança nas provações! A nossa gratidão e coerência nunca serão suficientes para agradecer este bonito legado que nos foi deixado com tanta esperança e amor”.
O intercâmbio geracional e o respeito à história da cada pessoa, principalmente àquelas que tem mais a nos contar, engrandecem e enobrecem os interlocutores. Acolher as diferenças e as riquezas próprias de cada geração, evita preconceitos, como por exemplo o etarismo, que contribui para a cultura do descarte (Fratelli Tutti) em que os idosos são, talvez, os que mais sofrem, por serem considerados ultrapassados e não mais relevantes à sociedade. Nada mais mentiroso. Em uma entrevista em 2020, o Papa Francisco disse que o antídoto para isso é viver a cultura do acolhimento, da proximidade, da fraternidade. Hoje, mais do que nunca, somos solicitados a ser fraternos, ir ao encontro do outro.
Em sintonia com Francisco, o Papa Leão XIV pede que libertemos os idosos da solidão, aproximando-nos deles e aprendendo com eles, pois “há uma bem-aventurança na velhice, uma
alegria autenticamente evangélica que nos convida a derrubar os muros da indiferença na qual os idosos estão frequentemente encerrados. Perante essa situação, é necessária uma mudança de atitude, que testemunhe uma assunção de responsabilidade por parte de toda a Igreja. Cada paróquia, associação ou grupo eclesial é chamado a se tornar protagonista da ‘revolução’ da gratidão e do cuidado, através de visitas frequentes aos idosos, criando para eles e com eles redes de apoio e oração, tecendo relações que possam dar esperança e dignidade àqueles que se sentem esquecidos”.
Há também as pessoas idosas que são bem acolhidas e valorizadas em suas famílias e seus círculos sociais: que belo testemunho de gratidão e que grande graça e oportunidade de
aprendizagem. Entre os muitos ensinamentos, talvez a maior aprendizagem seja a de amar e a de rezar, pois não há idade avançada, doença ou qualquer outra limitação que nos afaste do amor de Deus (cf. Rm 8,39); pelo contrário, são justamente essas coisas que nos ajudam a crescer em caridade e em santidade.
O Papa Leão XIV conclui sua mensagem dizendo: “portanto, sobretudo na velhice, perseveremos confiantes no Senhor. Deixemo-nos renovar todos os dias, na oração e na Santa
Missa, pelo encontro com Ele. Transmitamos com amor a fé que vivemos na família e nos encontros cotidianos, louvemos sempre a Deus pela sua benevolência, cultivemos a unidade com as pessoas que amamos, abramos o nosso coração aos que estão mais longe e, em particular, aos necessitados. Assim, seremos sinais de esperança, em todas as idades”.
Felizes os que tem a oportunidade de desfrutar da companhia de pessoas idosas que emanam sabedoria e uma ímpar ternura amorosa que lhes é própria. Deus abençoe e conceda
uma vida digna e afetuosa àqueles que tanto viveram e tanto amaram!
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Por
Diácono Murilo Viechnieski
Assessor Eclesiástico da Pastoral da Pessoa Idosa da Arquidiocese de Curitiba