SEMEADOR
Semanário Bíblico-Pastoral – Ano 2 – Número 45 – 22/02/2026
1º Domingo da Quaresma
“Naquele tempo, 1 o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2 Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. 3 Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”. 4 Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'”. 5 Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, 6 e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'”. 7 Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!'” 8 Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9 e lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. 10 Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto'”. 11 Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.”
Mt 4, 1 – 11
A celebração litúrgica deste Primeiro Domingo da Quaresma inaugura o itinerário penitencial sob o signo da esperança que emana do mistério pascal de Cristo, vivo e ressuscitado. Os quarenta dias que nos preparam para a Páscoa constituem-se como tempo propício à purificação do coração, a fim de acolher o dom da vida nova e a graça divina que dissipa as trevas do erro, da morte e do pecado, implantando em nós a luz da fé, da esperança e da caridade.
O poeta e Cardeal José Tolentino de Mendonça, em um de seus poemas dedicados ao tempo quaresmal, oferece-nos uma hermenêutica espiritual deste período, dizendo: “Ajuda-nos, Senhor, a olhar a Quaresma como uma primavera interior que desencadeia em nós uma verdadeira revitalização e rompe o oceano gelado que, tantas vezes, é a nossa vida”. E prossegue com uma súplica que é, simultaneamente, um programa existencial: “Ensina-nos, Senhor, a atravessar de olhos abertos a Tua Páscoa, vivendo-a como história atual que completamente nos envolve”. Tal convite impele-nos, especialmente a nós, educadores, a reconsiderar a própria vida não como realidade estável ou definitivamente estabelecida, mas como vocação permanentemente convocada a um “mais além”, a uma transcendência que se anuncia na finitude.
Impõe-se, assim, um discernimento fundamental: que nesta Quaresma não sejamos meros “turistas”, como aqueles que atravessam os lugares apenas de passagem, colhendo selfies de instantes fugazes e superficiais. Sejamos, antes, “peregrinos” atentos à estrada percorrida, mergulhando de alma e coração no caminho, deixando que os lugares nos interpelem e, neles, descobrindo a beleza e o sentido profundo da busca pela vida plena. Esta atitude torna-se ainda mais necessária em nossa missão docente, pois educar é também caminhar com os outros, formar percursos e abrir horizontes. Como eloquentemente recordava o saudoso Papa Francisco, é esta disposição peregrina que nos coloca na estrada santa do cumprimento das promessas e nos conduz à celebração da morte e ressurreição de Jesus, mistérios de passagem: passagem da morte para a vida, do tempo para a eternidade, dos dramas da história para a plenitude da comunhão com Deus na bem-aventurança eterna.
Neste Primeiro Domingo da Quaresma, a liturgia propõe-nos o Evangelho das tentações de Jesus. Tal como o Mestre, somos cotidianamente tentados por circunstâncias e experiências contraditórias que habitam o íntimo do nosso ser. Também nós, professores e educadores, em meio às exigências da missão e aos desafios cotidianos, somos esse emaranhado de palavras, tendências, possibilidades e desejos, no qual se torna necessário silenciar e escutar o próprio coração para organizar, em verdade, aquilo que realmente somos. Com efeito, as tentações mais decisivas não são as que nos chegam de fora, mas aquelas que se insinuam a partir de dentro. O relato evangélico, longe de exaurir-se na literalidade de três propostas concretas, possui caráter simbólico: ele sintetiza uma existência — a de Cristo e, analogamente, a nossa — que é continuamente exposta à dificuldade, à prova, à própria contradição.
Queridos educadores, coloquemo-nos a caminho. Que este primeiro domingo suscite em cada um de nós um propósito firme. No diagnóstico sincero da nossa vida, identifiquemos aquilo que somos chamados a mudar, aquilo que é possível mudar, aquilo que nós podemos mudar. E, então, ponhamo-nos a caminho rezando, procurando ajuda, confiados na graça que nos precede e acompanha nesta travessia de peregrinos, para que também nossa missão educativa seja iluminada pela esperança pascal e se torne sinal de vida nova para aqueles que nos foram confiados.